'Petrobras faz parte do passado da história de Mossoró', afirma o economista Elviro

Crédito da foto: ReproduçãoEconomista Elviro Rebouças é presidente da Previ Mossoró
Por César Santos/JORNAL DE FATO
O economista e empreendedor Elviro do Carmo Rebouças Neto, presidente do Instituto da Previdência de Mossoró, tem se empenhado para melhorar a assistência aos idosos acolhidos pelo abrigo Amantino Câmara. Foi dele a ideia de criar uma campanha de arrecadação de alimentos, produtos de higiene e limpeza e de dinheiro para amenizar as dificuldades enfrentadas pela mais antiga instituição em atividade na cidade.
A campanha Previ Solidário é um sucesso e deve arrecadar neste ano três toneladas de alimentos e produtos.
Nesta entrevista, Elviro Rebouças fala sobre a solidariedade dos mossoroenses, da importância do Amantino Câmara, mas também mergulha em outros temas importantes, como economia. Elviro Rebouças é empresário do ramo de factoring e indústria salineira e também faz parte da Associação Comercial e Industrial de Mossoró (ACIM) e da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL).

A CAMPANHA Previ Solidário chega ao segundo ano para atender o Abrigo de Idosos Amantino Câmara. Há um apelo muito forte, não apenas pelo período em que as pessoas estão mais solidárias, mas pela própria necessidade da instituição. Como é que a sociedade está respondendo à convocação da Previ?
EM PRIMEIRO lugar, eu quero dizer que nós instituímos essa campanha no ano passado junto aos 500 aposentados da Previ (hoje, são 760) e chegamos ao Instituto Amantino em junho de 2017 com 460 quilos de alimentos. Arrecadamos junto a funcionários, aposentados e pensionistas da Previ. Fomos recebidos festivamente pela presidente do abrigo, dona Edy Lima Moura, que é uma pessoa do mais alto conceito na cidade de Mossoró, pelos abrigados, e fizemos a doação. O abrigo passava, como ainda passa, por uma crise financeira de grandes proporções, e a nossa ideia aliviou a situação. Neste ano, nós decidimos não chegar em junho em função das eleições, para não confundir uma campanha de tanta benemerência com política, já que a Previ é uma autarquia ligada à Prefeitura. Portanto, deixamos passar as eleições e resolvemos fazer uma coisa com maior amplitude, convocar a sociedade por inteiro para se associar a essa causa nobre em favor do Abrigo Amantino Câmara, uma instituição que desde 1936 (há 82 anos), ininterruptamente, presta relevantes serviços a Mossoró. Hoje, são 79 abrigados, homens e mulheres, recebendo acolhimento com apartamentos simples, mas confortáveis, higiênicos, assistência médica e odontológica, com plantão 24 horas por dia na enfermaria e alimentação para café da manhã, almoço e jantar.

COMO as pessoas podem participar?
CHAMAMOS a sociedade, fizemos a parceria com os supermercados Cidade, Queiroz e Rebouças para a arrecadação da campanha. Nas lojas desses supermercados tem uma gôndola, na qual a pessoa encontrará um funcionário da Previ ou aposentado distribuindo folhetos e pedindo a contribuição das pessoas para essa campanha. Além disso, endereçamos uma correspondência ao comércio, à indústria de Mossoró, aos empresários, solicitando doação em dinheiro para o abrigo. Uma conta aberta no Banco do Brasil (agência 4687-6, conta corrente 8088-8) está recebendo as doações. Quem reside fora de Mossoró, pode fazer o depósito nessa conta, a partir de R$ 10,00. O dinheiro cairá em favor do Instituto Amantino Câmara. Portanto, teremos doação em alimentos, produtos de limpeza e em dinheiro que vai amenizar, e muito, o sofrimento por que passa aquela instituição.

É POSSÍVEL afirmar que o resultado deste ano vai superar o que foi arrecadado na primeira edição?
NÓS pretendemos encerrá-la no dia 17 de dezembro e no dia seguinte, 18, estaremos às 16h no Abrigo Amantino Câmara para fazermos a entrega. Teremos a presença da prefeita Rosalba Ciarlini, do bispo diocesano dom Mariano Manzana, dirigentes da Previ, representantes de entidades que se associaram como partícipes da campanha e de toda a imprensa. A essa altura, eu posso afirmar que a campanha arrecadará três toneladas de alimentos e produtos de higiene.

O SUCESSO da campanha, que já está confirmado, se justifica no sentimento solidário das pessoas?
NÓS não temos dúvida que o mossoroense é solidário. Também observamos que a credibilidade da campanha, da forma como ela está sendo encetada, conta muito em favor disso. Aqui nós estamos vendo única e exclusivamente o apoio à assistência ao abrigado, a homens e mulheres acolhidos e que recebem bom tratamento. Também é preciso reconhecer a importância da instituição fundada por dom Jaime de Barros Câmara, primeiro bispo de Mossoró, que com recursos próprios construiu o abrigo, hoje ampliado e melhorado, mas partiu dele, que era catarinense, de uma família rica financeiramente, realizar essa grande obra social para a cidade. Então, essa generosidade está se refletindo hoje, com a solidariedade do povo indo aos supermercados para participar da campanha Previ Solidário.

NÃO resta dúvida a importância da campanha que a Previ desenvolve no momento. Mas, não seria melhor que o abrigo de idosos de Mossoró recebesse a atenção dos governos, tivesse fonte de receita permanente, para não precisar recorrer à boa vontade das pessoas, através de campanhas?
VOCÊ tem razão. Em conversa com dona Edy Moura, ela tem me falado sobre as dificuldades que tem passado o Amantino Câmara. É pouco assistido pelos governos, Estadual e Municipal. As contribuições aparecem vez por outra, insuficientes para garantir a sua sustentação. Dona Edy tem me dito, e a palavra dela para mim é verossímil, que tem tirado dinheiro do próprio bolso para arcar muitas vezes com contas do abrigo, suprir necessidades que são várias naquela casa de acolhimento. Ela é presidente da instituição há 40 anos, já está com a idade avançada. Por isso, precisamos de pessoas que possam no futuro próximo realizar esse trabalho sacerdotal. O abrigo Amantino Câmara é a instituição mais antiga em funcionamento da cidade. Então, por tudo, deveria receber melhor tratamento das instituições públicas.

VAMOS mudar desse assunto agora e tratar de temas que o senhor, como economista, tem uma visão qualificada. A Petrobras está repassando 34 concessões do polo Riacho de Forquilha (região de Mossoró), os chamados poços maduros, para a iniciativa privada. Houve reações contrárias e a favor. Como o senhor avalia esse novo cenário?
HÁ dois tipos de análise. A primeira análise é negativa, porque significa dizer que a Petrobras está desinteressada pela exploração de petróleo do Rio Grande do Norte. Nós temos petróleo abundante em terra e na plataforma continental. Em 1958, há 60 anos, logo após a criação da Petrobras (1953, por Getúlio Vargas), geólogos e engenheiros americanos acorreram a Mossoró e, à altura da Gangorra, no limite do município com Tibau, perscrutaram o primeiro poço de petróleo em terra no Brasil e descobriram que nós tínhamos inesgotáveis reservas de petróleo. Isso ficou adormecido; só na década de 80 foi que realmente o petróleo virou esse boom e Mossoró se transformou no Texas brasileiro em produção. Nós já chegamos a produzir 160 mil barris/dia no Rio Grande do Norte, e hoje talvez não produzimos mais do que 50 mil barris/dia.

POR QUE há esse desinteresse, mesmo o senhor afirmando que o estado é uma fonte inesgotável de petróleo?
TEMOS petróleo e muito, entretanto a Petrobras voltou as suas vistas para a zona do pré-sal, que vai do Espírito Santo até São Paulo, chegando ao Paraná e Santa Catarina. No momento, estão sendo explorados poços na plataforma continental entre Espírito Santo e São Paulo, na chamada zona do pré-sal, e o Rio Grande do Norte, por ser um estado do Nordeste, de pouca representatividade política, passou a ser, digamos assim, o primo pobre da Petrobras.

E QUAL a segunda análise? É positiva?
PODE ser que essas empresas que estão ganhando essas concessões venham a produzir nos campos maduros e incrementem, quem sabe, uma nova realidade. Mossoró precisa disso, a economia local e regional espera que a produção de petróleo volte aos seus melhores momentos. Agora, precisam ser empresas de porte, que tenham capitais fabulosos, porque o petróleo é uma matéria prima importante, é o nosso ouro negro, e que a sua exploração exige que as empresas estejam capitalizadas. Se as empresas que estão ganhando essas concessões tiverem esse perfil, é bom para Mossoró. Entretanto, eu tenho as minhas dúvidas se isso vai ocorrer.

NÃO é de hoje que a Petrobras desacelerou os investimentos no Rio Grande do Norte e iniciou o processo de saída do estado. Daí, questiona-se: os setores da economia potiguar, principalmente a de Mossoró, se prepararam para enfrentar novo ciclo?
ENTENDO que a Petrobras é uma página virada da história de Mossoró. Nós tivemos aqui, no passado, um contingente de três mil pessoas trabalhando indiretamente para a Petrobras; hoje, deveremos ter 300 pessoas. Tivemos 800 empregados da própria Petrobras, como geólogos, engenheiros, superintendentes, advogados, de pessoas de alto nível de renda até o chamado “peão”, que trabalham diretamente na perscrutação do petróleo. Isso diminuiu consideravelmente. Talvez, hoje a Petrobras tenha 200 funcionários trabalhando em Mossoró. A perda desses salários causou um buraco muito grande na economia local. Perdemos três mil pessoas empregadas, 150 empresas de grande, médio e pequeno porte que se desinteressaram, abdicaram de seus contratos e foram embora. Esses salários eram investidos em Mossoró, na habitação, na alimentação, no lazer, enfim, ganhavam todos os setores da economia. A cidade teve um debacle considerável. Veja, por exemplo, por onde você passa na cidade tem uma casa ou apartamento com placa de vende-se ou aluga-se, sinal que houve uma exclusão de um quadro econômico representativo para a nossa economia.

QUAL é a saída, então? O novo ciclo?
MOSSORÓ vai se acabar? Claro que não. Mossoró do passado tinha o algodão, que foi totalmente extinto pela praga do bicudo; tivemos a época da cera de carnaúba, da oiticica, das peles de animais... Então, a cidade não vai se acabar. Surge resplandecentemente agora a educação em terceiro grau. Nós temos seis universidades em Mossoró, atraindo estudantes da Bahia ao Maranhão. São três cursos de Medicina a partir de 2019, com autorização dada agora pelo Ministério da Educação à Facene. Temos a UnP, a Diocesana, a Unirb (ex-Mater Christi) e duas universidades públicas (Uern e Ufersa) que recebem estudantes de todo o país. Então, é um polo educacional de terceiro grau que me parece ser o mais importante do Nordeste e do Brasil para cidades do porte de Mossoró. Isso está trazendo para cá técnicos, professores e alunos de diversos estados, o que fortalece o setor econômico da cidade.

MAS, o senhor não acha que as atividades produtivas estão devendo uma resposta mais urgente para que a economia local possa suprir a falta da Petrobras?
VOCÊ tem razão. Falta, sim, essa resposta do setor produtivo. Também é importante que os governos Estadual e Municipais, nessa ordem, proporcionem incentivos e estímulos para que nós tenhamos aqui outras atividades. O turismo, por exemplo, se fala muito nessa atividade em Mossoró, mas ainda precisa muito. Tivemos o êxito agora na luta por um voo comercial diário (companhia aérea Azul) entre Recife (PE) e Mossoró. Esse voo chega e sai lotado diariamente. Precisamos ampliar essas possibilidades, porque passamos muitos anos sem contar com linhas comerciais.

É DIFÍCIL falar no fortalecimento da atividade turística numa cidade que passou uma década sem voos comerciais e que tem um aeroporto que opera com limitações...
É VERDADE. Como é que se faz turismo sem avião? O turista que sai da Europa para Natal ou Fortaleza (CE), que poderia vir conhecer os poços de petróleo de Mossoró, as nossas águas termais, salinas, que é coisa rara de se vê no Brasil, além das nossas praias bonitas, não vai viajar três horas de carro. Temos a Costa Branca, de um esplendor a toda prova, que enche a vista de Tibau até Macau, mas que não recebe qualquer investimento, seja público ou privado. Qual o empreendimento turístico que foi erguido para dar sustentação ao turismo? Absolutamente, nenhum. De Tibau e Macau, você não encontra nem habitação, nem hotéis, nem pousadas, nem barracas que possam atrair o turista. Esse cenário precisa mudar, e só muda com investimento dos setores público e privado.

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